terça-feira, 24 de setembro de 2013

OS VERSOS QUE EU TE DOU - A NOSSA CAMA (J. G. de Araújo Jorge)






OS VERSOS QUE EU TE DOU

Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos...e serei feliz...

E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei  depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...

Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...

Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez...

E ao lê-los...com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez...

Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...

Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.


  
 NOSSA  CAMA



Olho nossa cama. Palco vazio
sem o drama, sem a comédia,
do nosso amor.
A nossa cama branca,
branca página, em silêncio,
de onde tudo se apagou...
(Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias,

aqueles gemidos, aqueles carinhos
que a mão do tempo raspou, como nos velhos
pergaminhos?...)
A nossa cama
imensa, como a tua ausência,
tão ampla, tão lisa, tão branca,

tão simplesmente cama,
e era, entretanto, um mundo,
de anseios, de viagens, de prazer,
- oceano, que teve ondas e gritos encapelados,
nele nos debatemos tanta vez como náufragos
a nadar... e a morrer...
Olho a nossa cama, palco vazio,
em nosso quarto, - teatro fechado -
que não se reabrirá nunca mais...
Nossa cama, apenas cama,

nada mais que cama
alva cama, em sua solidão
em seu alvor...
Nossa cama
- campa (sem inscrição)
do nosso amor.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

DE: JOÃO FERNANDES DE BRITTO: Teus Braços - Maravilhas


                TEUS BRAÇOS  
Do poeta que morrer crucificado

Quis nos braços da amada, eu não abrigo 
O ideal, que sonhos trágicos não ligo
Ao meu amor intenso e sublimado.
 

Aspiro ao gozo de viver contigo  
O sumo bem de amar e ser amado. 
 
Aliás, santo não sou, nem celerado,  
Para a glória ou o labéu de tal castigo.
 

Não tenho vocação para os martírios,
Penso em lustres acesos, não em círios,
Nunca esperes de mim tristes propostas. 
 

Os teus braços em cruz eu não anseio,
Mas, num amplexo que te esmague o seio, 
Quero-os cruzados sobre as minhas costas!                                                 Dr. Brittinho
              
                      MARAVILHAS

Se de Nova Granada certa flor,
Às orquídeas formosas pertencente,
“Maravilhas da Cor” por toda a gente
É chamada, deveras, meu amor.

Graças ao colorido encantador
De seus vários matizes, tão somente
Comparáveis àqueles do Ocidente,
Nas horas sublimadas do sol-pôr,

-Ao teu perfil olímpico atendendo.
A perfeição dos teus contornos vendo
E vendo-te a beleza singular,

Estrela matutina dos meus dias,
Por razão similar, também devias
“Maravilha das Formas” te chamar!
                         Dr. Brittinho.

VINÍCIUS DE MORAIS:(Rio, 19/10/1913 — 09/07/1980) SONETO DA FIDELIDADE - SONETO DO AMOR TOTAL

             

      Soneto de Fidelidade (Vinícius de Morais)
 

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Soneto do Amor Total (Vinícius de Morais)

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.